Arquivo do mês: junho 2009

Comunidades virtuais difundem formas de emagrecer

Métodos saudáveis e maléficos disputam espaço na web

Cristine Kist, Giuliana de Toledo, Idiana Tomazelli e Mônica Reolom

Atualizado em 15/07/09, às 23h50.

Emagrecer

Imagem: flc214/ Flickr

Para quem quer emagrecer, a internet pode tornar-se uma ferramenta para dividir experiências e receber apoio de grupos com o mesmo interesse. Em redes sociais como o Orkut, é possível encontrar centenas de comunidades voltadas ao tema. Blogs e fóruns também são espaços para registrar o dia-a-dia de quem luta contra a balança por meio de dietas ou mesmo de cirurgias. Porém, nem sempre o método de emagrecimento indicado na web é saudável. Há muitas comunidades com dicas pró-anorexia e pró-bulimia (as chamadas pró-ana e pró-mia) que fazem apologia a esses distúrbios alimentares.

O Orkut pode ser uma fonte de pesquisa de dietas. Uma simples busca pelo termo “emagrecer” retorna mais de 900 resultados de comunidades. Entre os grupos mais numerosos, está o “Quero e vou emagrecer!”, com quase 11 mil membros. Lá é possível consultar diversas receitas de dietas, trocar depoimentos e relatar dificuldades no processo. Um tópico criado em 2006 para acompanhar semanalmente o peso dos membros é o mais popular da comunidade. Para a nutricionista Myriam Milano, a iniciativa é valida: “Funciona bastante para quem quer participar do grupo e talvez para quem não tenha recursos para procurar um atendimento individualizado, ou mesmo para quem precisa de um apoio que não seja de familiares e amigos”.

Confira aqui trecho da entrevista com a nutricionista Myriam Milano.

Livro registra experiências de quem perdeu peso fazendo blog/ Reprodução

Livro registra experiências de quem perdeu peso fazendo blog/ Reprodução

A comunidade “Quero e vou emagrecer!” foi criada em março de 2005 pela blogueira Lu Francesa, que também enfrentava problemas com seu peso. Hoje, vários quilos mais magra, Lu, que também mantém um blog sobre emagrecimento, acredita que a internet foi essencial para atingir seu objetivo. “Escrever sobre as dificuldades e problemas relacionados a comida e ter ajuda de outras pessoas facilitam muito, porque na maioria das vezes o excesso de peso tem a ver com os problemas emocionais”, relata. Sua atuação na web também rendeu amizades e notoriedade fora do ambiente virtual. A criadora do grupo já organizou alguns encontros – os mais numerosos em São Paulo e no Rio de Janeiro – e ajudou a jornalista e blogueira Andréa Antonacci a escrever o livro “Emagreci fazendo um blog” – publicação que conta como a internet pode ajudar a perder peso e ganhar amigos.

Saiba mais sobre o livro “Emagreci fazendo um blog”.

Pacientes que fizeram cirurgia de redução de estômago (gastroplastia) formam um grupo notável de blogueiros (confira lista de alguns blogs no final da matéria) que usam a internet para contar seu processo de emagrecimento, encontrar outras pessoas na mesma situação e informar interessados em submeter-se à cirurgia. Até um portal foi criado especialmente para orientar sobre o assunto. No Gastroplastia.net, há informações completas sobre o pré e o pós-operatório, riscos do procedimento, relatos e links de blogs de pessoas que já fizeram a cirurgia, contatos de médicos, entre outras. Por pesquisarem em páginas desse tipo, muitos pacientes já chegam ao consultório sabendo o que querem. A tendência, segundo o Dr. Cláudio Mottin, diretor do Centro da Obesidade e Síndrome Metabólica (COM), do Hospital São Lucas da PUCRS, é positiva: “Acho muito interessante que venham mais informados”. No entanto, como algumas informações partem da vivência, e não de um conhecimento científico, é essencial consultar um especialista para obter a orientação correta para cada caso.

A prática de fazer blogs para registrar a gastroplastia tem sido recomendada até mesmo pelos médicos. Dr. Mottin relata que em um recente congresso em Dallas, nos Estados Unidos, a internet como parceira no tratamento foi um dos focos de debate. Formar um grupo virtual para a troca de experiências é apontado por alguns especialistas como um importante aliado na recuperação dos pacientes. O diretor do COM, contudo, recomenda que essas comunidades convidem eventualmente um médico para contribuir na discussão.

Anorexia e bulimia: comunidades contra e a favor

Myriam Milano: acompanhamento profissional é o mais indicado/ Foto: Idiana Tomazelli

Myriam Milano: acompanhamento profissional é o mais indicado/ Foto: Idiana Tomazelli

Paralelamente a iniciativas que promovem um emagrecimento saudável, o Orkut abriga também comunidades que fazem apologia à anorexia e à bulimia – na comunidade “Quero e vou emagrecer!” tópicos desse tipo são vetados. Usando os apelidos “ana” (anorexia) e “mia” (bulimia), os membros defendem o que chamam de “estilo de vida”. No entanto, a anorexia e a bulimia são doenças graves que podem levar à morte. A não-ingestão de alimentos (anorexia) e a prática de provocar vômito após comer (bulimia) são tratadas, por essas pessoas, como algo que lhes proporcionará a perfeição estética. A nutricionista Myriam Milano aponta os riscos que esses espaços oferecem: “Com esse incentivo, eles fornecem ideias que, às vezes, a pessoa não tem, e acaba até agravando a doença, porque elas [que sofrem do distúrbio] conseguem esconder por mais tempo dos familiares”. O psicólogo Fernando Elias José também alerta para o perigo desses grupos na web: “Se as pessoas já tiverem alguma pré-disposição para desenvolverem essas doenças, com o estímulo da internet terão muito mais ferramentas para fazê-las”. Há comunidades no Orkut com cerca de 950 membros – muitos destes com a identidade oculta atrás de perfis falsos. Os fakes costumam ser batizados com nomes alusivos a “ana” e “mia” e exibir fotos de pessoas magérrimas ou celebridades que já sofreram desses distúrbios – como a cantora Anahí (do grupo RBD) e as atrizes Nicole Ritchie e Mary-Kate Olsen.

Ouça aqui a opinião da nutricionista Myriam Milano.

Nas comunidades pró-ana e pró-mia, são difundidas formas de inspiração para continuar seguindo esse caminho radical de emagrecer. Fotos, músicas e frases de efeito servem como thinspirations (inspirações para a magreza). Há tópicos específicos para iniciantes na comunidade pegarem esse “material de apoio”, conhecerem os “mandamentos” e informarem-se sobre técnicas de LF (low food, pouca ingestão de alimentos) e NF (no food, jejum total). Para os já iniciados, há campeonatos de quem fica sem comer por mais tempo e dicas para enganar amigos, familiares e médicos (principalmente no momento de pesagem). Há também uma espécie de código de identificação entre os participantes desses grupos: vocabulário próprio e o uso de pulseiras (vermelha para “ana” e roxa para “mia”) são formas de mostrar adesão.

Confira aqui uma lista com as principais expressões utilizadas por quem sofre de anorexia e bulimia.

Por outro lado, há comunidades no Orkut contrárias a esses distúrbios (confira lista com algumas comunidades no fim da matéria). Nesses espaços, pessoas que querem superar o problema encontram apoio de outras que já se recuperaram, ou que simplesmente querem ajudar. Nos fóruns, também é comum que amigos de pessoas que sofrem de anorexia e bulimia procurem informações sobre como podem auxiliar. Há cerca de dois anos, Maria (nome fictício dado à entrevistada, que não quis se identificar) integra uma comunidade de ajuda para quem sofre de anorexia e bulimia. Para ela, as trocas de experiência e a orientação profissional oferecidas na comunidade (profissionais ligados à Psicologia acompanham algumas discussões do grupo) foram decisivas em alguns casos. “Transtorno alimentar não é brincadeira, e algumas pessoas simplesmente não entendem isso e fazem muito mal, influenciando crianças e adolescentes”, alerta.

Qualquer usuário do Orkut pode denunciar uma comunidade que faça apologia à anorexia e à bulimia clicando no botão “denunciar abuso”. Segundo os termos de serviço do Orkut, o Google, responsável pela rede de relacionamentos, não tem qualquer obrigação de fazer vigilância sobre os conteúdos lá difundidos: “Não podemos monitorar o que hospedamos ou aquilo para o qual criamos links, embora em alguns casos nós devêssemos. Não fique surpreso se vir algo de que não gosta. Você sempre poderá nos falar sobre isso ou deixar de olhar esse conteúdo”, esclarece a política do site.

Os profissionais envolvidos no tratamento de pessoas que sofrem de distúrbios alimentares acreditam que a internet possa ajudar no processo. No entanto, não dispensam o acompanhamento especializado. “Procurar ajuda sempre é válido, mas é preciso ter certeza da seriedade desta ajuda”, diz Fernando Elias José. O psicólogo ressalta: “O importante é vencer a doença, mas com cautela, seriedade e profissionalismo”.

Confira aqui o que a nutricionista Myriam Milano diz sobre o tema.

Fique atento: De acordo com a Revista CFN – Conselho Federal de Nutricionistas (Número 27, Janeiro/Abril de 2009), é considerado antiético que os nutricionistas atendam a pacientes por meio da internet. O diagnóstico e o tratamento devem ser individualizados. Para evitar erros médicos e prescrições incorretas, é preciso que a consulta a um nutricionista seja presencial. Conforme o artigo 70, inciso XVII, capítulo IV do Código de Ética do Nutricionista é antiético dar consultas “através da internet ou qualquer outro meio de comunicação que configure atendimento não-presencial”. Os profissionais que descumprirem a orientação podem ser punidos pelo Conselho.

Campanhas em vídeo na internet

Muitas das celebridades que já sofreram de anorexia e/ou bulimia hoje fazem campanha de conscientização dos riscos dessas doenças. Paradoxalmente, sua imagem continua sendo vinculada a comunidades virtuais pró-ana e pró-mia. O vídeo abaixo, por exemplo, mostra a cantora Anahí em campanha contra a bulimia.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

LINKS RELACIONADOS

Blog e comunidade da Lu Francesa:

http://www.lufrancesa.com/

Quero e vou emagrecer!

Blog de Andréa Antonacci:

http://meublogspa.wordpress.com/

Livro:

“Emagreci fazendo um blog”

Sites e blogs sobre gastroplastia:

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http://inmyshoes.zip.net/

http://www.gastroplastia.net/

http://mbpintoo.blogspot.com/

http://clauquevaisermagrinha.blogspot.com/

http://minhareducaodeestomago.zip.net/

http://emagrecendocorpoealma.blogspot.com/

Comunidades no Orkut contra anorexia e bulimia:

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Digo não a anorexia e bulimia

Anorexia, Bulimia – Ajuda

Ana e Mia – Grupo de Apoio

Bulimia e Anorexia: eu superei

Vídeos de campanhas contra “ana” e “mia”:

http://www.youtube.com/watch?v=2DxjE08Gh8o

http://www.youtube.com/watch?v=JiCtVCS0zfo

Artigo científico sobre anorexia e bulimia nas redes sociais, de Vanessa Alkmin Reis:

http://www.rumores.usp.br/reis.pdf

A palavra é dos fãs

Prática de fan fiction dá novas versões a histórias consagradas e aproxima pessoas dentro e fora do ambiente virtual

Cristine Kist, Giuliana de Toledo, Idiana Tomazelli e Mônica Reolom

Atualizado em 13/06/09, às 11h.

Quem pensa que as narrativas literárias estão restritas aos livros se engana. A internet vem abrindo espaço para que cada vez mais pessoas possam publicar seus textos. Além de inventar novas histórias, é possível recriar aquelas já consagradas conforme a vontade e a criatividade de seus fãs. As fan fictions – apelidadas de fanfics e também chamadas de webnovelas no Brasil – representam o desejo de poder dar rumos diferentes às conhecidas histórias ou escrever sua própria sequência antes mesmo da publicação oficial, caso comum nas séries Harry Potter e Crepúsculo. Quem reinventa as histórias pode ganhar também reconhecimento de outros fãs e se consagrar entre os adeptos das fanfics. O contato entre os leitores e os autores muitas vezes transcende o ambiente virtual e se transforma em amizade.

A série de Stephenie Meyer é assunto de diversas fanfics da atualidade / Reprodução

A série de Stephenie Meyer é assunto de diversas fanfics da atualidade/Reprodução

A iniciativa de dar continuidade às tramas, ou até mesmo recriá-las, não é nova. Já no século XVII, versões não autorizadas de Dom Quixote foram escritas antes da publicação do segundo volume da obra de Miguel de Cervantes (1615). Antes da internet, as fanzines – revistas produzidas por fãs – também traziam novos rumos para histórias como Star Trek. A grande vantagem que a web acrescentou é a possibilidade de publicação fácil e de amplo alcance. O site FanFiction.net, criado em 1998, é o maior portal de reunião desse tipo de texto na rede. Lá podem ser encontradas fanfics de livros, animes, mangás, filmes, desenhos animados, jogos, entre outras. No Brasil, uma proposta parecida foi lançada pelo portal E-Novelas. Além de sites especializados, há fóruns, grupos de e-mails, blogs e comunidades no Orkut destinados à atividade. O formato de publicação dos fóruns permitiu que leitores e autores criassem um vínculo maior. Nos comentários, é possível sugerir mudanças na história, elogiar ou simplesmente conversar com outras pessoas.

Fãs de webnovelas de RBD mantêm uma comunidade com quase 36 mil membros/Reprodução

Webnovelas de RBD reúnem 36 mil membros em comunidade do Orkut/Reprodução

A estudante Júlia Vieira, de 16 anos, é um dos casos bem-sucedidos de escritores de fanfics. Por conta de seus textos sobre a banda mexicana RBD, Júlia conquistou adeptos e hoje reúne mais de cinco mil membros em uma comunidade no Orkut dedicada a suas histórias. “Coloco no Orkut: ‘estou em tal cidade’ e as leitoras da cidade normalmente me pedem para encontrá-las e organizam um pequeno encontro”, conta Júlia. Muitas dessas reuniões resultam em amizades que ultrapassam as fronteiras do virtual. Além disso, sua notoriedade como escritora de fan fiction lhe rendeu uma aproximação com os ídolos. Em um show do RBD, algumas de suas leitoras entregaram à cantora Dulce María cópias de seus textos: “[Ela] respondeu dizendo que havia lido e até citou um pedaço da estória”, orgulha-se.

Leia aqui uma das histórias de Júlia Vieira.

Experiência parecida foi vivenciada por Marianne Brum, 18 anos, que costumava frequentar fóruns e ler fanfics relacionadas a Harry Potter. “Era comum as pessoas viajarem pra se encontrar […]. Foi assim que eu conheci pessoalmente algumas pessoas com quem eu já tinha falado pela internet”, lembra. No entanto, nem sempre as fan fictions rendem amizades além do meio virtual. Atualmente, Marianne só lê fanfics “quando bate uma nostalgia e falta do que fazer” e raramente conversa com os amigos feitos nos fóruns de discussão. Já Marina Valenzuela, de 18 anos, costumava escrever histórias sobre núcleos secundários da trama de Harry Potter, mas nunca teve um encontro com os leitores.

Criar uma história para publicar na internet pode contribuir para o desenvolvimento da criatividade e, até, revelar vocações. Marcelo Spalding, escritor e doutorando na área de literatura e novas tecnologias da UFRGS, acredita nesse potencial: “Se um gênio […] faz uma fan fiction de uma outra obra, a obra dele pode ser melhor que a original”. A criação a partir de uma história já existente, segundo Spalding, não diminui a validade do texto: “Não dá para a gente se prender na ideia de original e cópia. O que importa é a criatividade”, ressalta. O escritor lembra ainda que o recurso de fazer versões para outros livros sempre foi comum entre escritores.

Clique aqui para conferir a entrevista com Marcelo Spalding.

Com as fanfics, Júlia Vieira tomou gosto pela escrita e agora pretende seguir carreira no Jornalismo. Outro desejo da estudante é ver um de seus trabalhos publicados em forma de livro, mas acha que ainda não está pronta: “Ainda tenho que melhorar muito na minha escrita e nos rumos de minhas estórias, mas quem sabe, um dia, consiga publicar algo”. As fanfics também podem ajudar na formação de leitores: “Só comecei a ler autores mais clássicos a partir de fanfics de Harry Potter, por exemplo”, conta Marianne.

A saga de Harry Potter é campeã de fanfics na web

A saga de Harry Potter é campeã de fanfics na web/Reprodução

O fenômeno Harry Potter é o mais popular entre os adeptos das fan fictions – só no FanFiction.net existem mais de 400 mil publicações sobre a obra de J.K. Rowling. Tamanha repercussão levou a autora britânica a se manifestar sobre o assunto através de sua assessoria de imprensa. Ela se disse lisonjeada pelo interesse dos fãs, mas ressaltou que os textos não podem ser feitos com interesses comerciais e devem deixar claro que não são de autoria da criadora da saga. Outra escritora que se mostra favorável é Stephenie Meyer, autora do sucesso Crepúsculo. Em seu site oficial, Stephenie reserva espaço para links de páginas de fãs. Já Anne Rice, escritora do livro Entrevista com Vampiro, é contrária à apropriação de suas histórias e pediu para os responsáveis pelo site FanFiction.net tirarem do ar textos referentes à sua obra. Como os escritores de fanfics se apropriam de elementos da criação original de outros autores, a prática desrespeita as leis de direitos autorais – com exceção de personagens que já tenham caído em domínio público. Cabe então ao autor original proibir ou incentivar as fanfics.

As múltiplas releituras das histórias originais podem causar temor entre os criadores, que perdem controle sobre os rumos da própria obra. “[Os leitores] podem fazer uma fan fiction para ajudar, para colaborar, mas podem fazer uma paródia, um pastiche daquela obra, que vá inclusive contra o que ela havia planejado”, analisa Marcelo Spalding. No entanto, o modelo de publicação das fanfics pode se tornar um aliado e servir até de inspiração para os profissionais da literatura: “É possível que alguns escritores façam o caminho, até meio comercial, de escrever uma parte, esperar o retorno dos leitores e depois fazer a continuação”, reflete Spalding.

Confira alguns sites e comunidades dedicados a fan fictions:

FanFiction.net

E-novelas

– Verbete na Wikipedia sobre fan fiction em inglês/em português

– Comunidade Web Novelas no Orkut

Veja o depoimento de Idiana Tomazelli, uma de nossas blogueiras, sobre as amizades que fez por meio das fanfics.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.